"Corra!", de Jordan Peele é um dos indicados ao Oscar deste ano na categoria de melhor filme. O longa se caracteriza por um suspense muito bem construído, daqueles de fazer o expectador roer as unhas a cada cena e sair das salas de cinema impactado. A obra, em si, não fala explicitamente sobre o racismo. Entretanto, aborda de maneira inteligente a todo o tempo, o racismo velado. E, a VAVEL Brasil analisará este fio condutor quase que imperceptível a "olho nu".
Para falar de Corra! é necessário, antes de tudo, entender, mesmo que de maneira rasa, a mente de seu criador: Jordan Peele. O roteirista renomado de comédia saiu de sua zona de conforto e se aventurou num suspense com nuances claras de terror. Se não bastasse, utilizou como um dos fios condutores do longa, uma discussão necessária e atual: o racismo.
Jordan Peele e a sofisticação ao falar de racismo
Jordan Peele teve a coragem típica de um humorista em expôr, de maneira sutil e inteligente, um problema. A todo momento, utilizou metáforas sofisticadas para colocar o dedo na ferida. Logo no trailer da obra, é possível perceber que os vilões da trama, diferentemente dos filmes de horror habituais, não se tratavam de aliens ou monstros, mas sim de uma família branca, de classe média alta, descendente de alemães. Pasmem, os brancos eram os vilões.
A trama de Jordan Peele tem roteiro simples e, a olho nu, parece abordar, de forma superficial, o racismo velado. Um relacionamento inter racial e a preocupação de Chris, protagonista negro, em conhecer a família de sua namorada. “Eles sabem que eu sou negro?" Essa é a interrogativa que irá estabelecer a trama do filme. Tudo normal até então. Todavia, a obra é revestida de camadas metafóricas.
Logo na primeira cena, Peele estabelece uma 'inversão de valores' com tom sarcástico quase que imperceptível. Um jovem negro, ao caminhar pelas ruas de um bairro de classe média alta, bem iluminado é abordado e sequestrado por um homem que dirigia um carro branco (a cor do automóvel, acreditem, não foi a toa). A cena corta e entram o título e os créditos iniciais. O filme já mostrara ter algo a dizer.
Durante viagem rumo à casa da família de Rose - namorada de Chris -, o casal atropela um cervo, animal típico da região norte americana. Ali, Peele volta às atenções para o racismo velado do policial que aborda a dupla à beira da estrada. Mas, o diretor queria dizer mais, e isso estava implícito. O cervo se trata de um animal de caça que pode ser descartado ou usado como troféu. Na cena, Chris parece ser o único a se preocupar com a morte do bicho, e, ao chegar à casa de Rose, percebe que o pai da garota demonstra clara felicidade ao saber do atropelamento do animal. No futuro, é possível observar a cabeça de um cervo empalhado usado como decoração - ou, um troféu - em uma das salas da casa. Ali, Peele tenta uma alusão entre o cervo/negro e o caçador/branco.
A trama dá continuidade e Jordan Peele evidencia o racismo em algumas cenas, como quando Chris percebe que todos os empregados da casa são negros, ou durante uma festa, quando escuta diferentes frases de teor racista tal qual "negro está na moda", por exemplo. Todavia, é necessário destacar mais uma vez que Peele discute o racismo de maneira implícita e metafórica.
Chris sofre durante a trama um processo de hipinose feita pela Sr.ª Armitage, a mãe da Rose. A personagem busca hipnotizar o protagonista ao rodar uma colher de prata numa xícara de porcelana, enquanto Chris encontra-se sentado em uma poltrona de couro. Na cena, é possível estabelecer uma representação simbólica de poder e embranquecimento. Seria o óbvio. Mas, novamente, Peele não discute o óbvio. O "x da questão" estava na simples poltrona de couro.
Na parte derradeira da trama, ao perceber o processo de hipinose e de aprisionamento que sofrera, Chris se salva. E, é simbolicamente belo, com isso ocorre. O protagonista, preso com correntes e sentado na mesma poltrona de couro, rasga o estofado e utiliza o algodão, produto-símbolo da escravidão estadunidense, como escudo contra a sedução auditiva que iria aprisioná-lo e o torná-lo mais um refém da família Armitage.
Torna-se claro que Jordan Peele, como um bom humorista, utiliza de maneira inteligente metáforas e alusões históricas que discutem o racismo velado. A olho nu, fica evidente as frases racistas ditas por personagens brancos a todo tempo. Mas, é na análise um pouco mais observadora que a discussão de Peele se torna óbvia.
A cartada final do diretor, fecha com chave de ouro a trama. Peele coloca todos nós, espectadores, numa posição incômoda na última cena do longa, onde fazemos um grande e necessário exercício de alteridade. Chris, cercado de corpos e lutando contra Rose em busca da sua liberdade, vê a polícia chegar. Ali, o expectador, sem dúvidas, incrédulo, pensou: "é claro que ele vai ser preso". É óbvio, ora. Um negro lutando contra uma mulher branca. Mas, o Peele não falava do óbvio. O roteirista então coloca o expectador na posição de confirmação irrefutável sobre a violência social.
Assim, Jordan Peele, além de discutir de maneira inteligente e sofisticada o racismo e a supremacia branca pode ser coroado como o primeiro diretor negro a levar o Oscar na categoria melhor direção.
