Minha família ama futebol, aprendi desde pequena a torcer. Com um ano eu já tinha o uniforme completo do Palmeiras da era da Parmalat. Essa influência veio de todos os membros da minha família. Minha mãe acompanha a todos os jogos. Minha avó, hoje com 84 anos, ouve as partidas pelo seu radinho de pilha. Ela sempre disse que ia ensinar todos os filhos e netos a torcer para o Palmeiras, e ensinou. Até meu avô, que era santista, passou a torcer pelo verdão por causa dela, tamanha a paixão que ela tinha e tem até hoje.

Mas quando me perguntam sobre como o futebol surgiu na minha vida já remetem que apenas o meu pai me ensinou a assistir aos jogos. Que foi ao ver o meu irmão torcer pelo time que me senti influenciada. É claro que eles também influenciaram e muito, mas é difícil alguém cogitar que duas mulheres também exerceram o papel de me ensinar o amor pelo esporte.

Você senta à mesa de um bar e começa a assistir ao jogo. O garçom fica admirado com o fato de que tem uma mulher que não só assiste a partida, mas que ainda sabe argumentar sobre o que está acontecendo. Participei diversas vezes de discussões e cansei de ouvir que deveria explicar o que é a regra do impedimento ou falar a escalação completa do meu time para que eu provasse que eu entendo mesmo. Mas quem disse que eu tenho que provar algo para alguém¿

Provar que sou mulher e entendo de futebol. Que eu não preciso me dar ao respeito ou ser uma moça de família, parar de falar palavrão e gritar enquanto assisto a um jogo. Que posso ganhar o mesmo salário que um homem que exerce a mesma função que a minha. Que o direito sobre o meu corpo é meu e de mais ninguém. Que quem tem que tomar todas as decisões relacionadas a minha vida sou eu.

Infelizmente em nossa sociedade ainda é muito presente a questão de ter que provar para alguém que nós somos capazes de exercer algo e ter o domínio sobre o que é nosso por sermos mulheres. Isso já passou da hora de acabar.

Meu maior desejo em relação as mulheres no futebol é que tenha menos Musas do Brasileirão e mais mulheres na presidência e na diretoria de grandes clubes do país. Que parem de associar nossos corpos ao esporte e passem a associar nossa capacidade em exercer grandes funções. Que entendam que a bandeirinha, a árbitra ou a gandula não está lá para embelezar a partida nem para ouvir o assédio que vem das arquibancadas e que a mídia tenta normatizar em suas manchetes que chamam a atenção para “as belas da partida” ou para as galerias de fotos dos jogos onde você pode ver “as mais bonitas”. Elas não estão lá como um objeto para ser admirado. Elas estão lá porque amam o que fazem. É simples.

Nós somos mulheres, amamos futebol e somos capazes de argumentar e falar sobre o esporte tanto quanto um homem. É simples.

Precisamos falar sobre a mulher no futebol. Precisamos falar sobre a mulher em nossa sociedade. Precisamos mudar a visão do que vem sendo feito quanto a isso. Não vem sendo fácil mas a nossa luta não pode parar. Assim como o Palmeiras vai embalado para buscar as vitórias nos jogos, nós vamos em busca da nossa igualdade. E para ambos: Avanti! Scopia che la vittoria è nostra!

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